Especial Administração Pública e Gestão Social – 15 anos

Publicado em 28/10/2026. Atualizado em 28/10/2026 às 17h22

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“Eu sempre detestei política. Se alguém viesse conversar sobre isso, eu dizia que não queria saber. Eu sou de uma periferia, do bairro do Alto da Penha [Crato-CE] e eu entendia que o Estado tem muita responsabilidade sobre o bem-estar das pessoas e das comunidades. Então, eu pensava assim: ‘Eu quero lá saber de um Estado que não chega aqui? Eu quero lá saber de uma coisa que parecia um câncer?'”.

Com a declaração acima, Maria Isabel Bezerra recorda da época em que resolveu cursar administração pública no então campus Cariri da Universidade Federal do Ceará (UFC), cujas aulas começaram no segundo semestre de 2011. Isabel foi da primeira turma desse curso.

Hoje, a graduação é oferecida pela Universidade Federal do Cariri (UFCA), nascida em 5 junho de 2013, após desmembramento do antigo campus Cariri da UFC. À época de sua criação, o curso ainda não trazia o termo “gestão social”, tal como é nomeado hoje (ver Aprovação do Curso).

Conforme Maria Isabel, ela sempre gostou de cálculo e, por isso, pensava em cursar administração – curso que a UFC já mantinha na região do Cariri, desde 2006. Os olhos da então estudante se voltaram para a administração pública por incentivo do pai, que sugeriu que ela fizesse a nova formação da UFC: “Ele me disse que ninguém cresce no conforto. Então, eu resolvi tentar”, disse.

Maria Isabel Bezerra, egressa de administração pública da UFCA. Foto: arquivo pessoal (com edição)

O curso demorou a surpreender positivamente a estudante. Segundo Maria Isabel (então casada e com duas filhas: Flávia e Sara, na época com 10 e de 7 anos), ela “detestou” o primeiro período letivo.

“Eu quis desistir do curso e o professor Geovani Tavares me indicou algumas leituras. A partir dessas leituras, eu fui permanecendo e, no segundo semestre, eu me apaixonei completamente pelo curso, porque eu percebi que essa ausência do cidadão nas políticas públicas é o que acentua a prevalência da situação [negativa]”, compartilha Isabel.

Uma década e meia depois, a Diretoria de Comunicação (Dcom/UFCA) traz um especial de aniversário de 15 anos do curso de administração pública e gestão social. Com fotos, vídeos e depoimentos, a série rememora a criação do curso e amplia, para toda a comunidade universitária, os debates que revitalizaram as discussões no chamado “campo de públicas”, sendo a própria criação do curso um desdobramento disso.

Assista ao vídeo principal deste especial, com janela de Libras realizada pela tradutora-intérprete de Libras-português Aliceane Feliciano, com apoio da Secretaria de Acessibilidade (Seace/UFCA).

“É um curso para quem quer mudar o mundo”

Natural de Madalena-CE, Joelmir Pinho ingressou ainda jovem no Movimento Sem-Terra (MST) e, com isso, precisou se mudar para Quixadá, no Sertão Central cearense, antes de concluir o ensino médio. Pelo alto volume de atividades na militância, ele não pôde concluir o ensino médio no tempo considerado regular. 

“Eu estava no ensino médio, em Maranguape [CE], quando surge o convite para me juntar à militância no Movimento Sem-Terra. Depois, eu passo pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Pnud, como consultor. Eu era o único profissional da equipe que não tinha formação técnica, mas eu tinha toda uma trajetória de vida que me credenciava a atuar exatamente naquilo que os profissionais com formação acadêmica não tinham, que era o contato com as pessoas e com os territórios”, compartilha Joelmir.

Joelmir Pinho é egresso do curso de administração pública da UFCA e foi professor do curso. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

Antes de se radicar no Cariri, entre 2005 e 2006, Joelmir acumulou, por todo o Ceará, diferentes funções em gestões municipais e em organizações da sociedade civil sem fins lucrativos – como gestor, consultor, voluntário ou facilitador de percursos formativos.

Em 2010, ele descobre que, pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), era possível obter o certificado de conclusão do ensino médio. Assim, Joelmir prestou o Enem e obteve, simultaneamente, a certificação do ensino médio e a nota necessária para ingressar na UFC Cariri.

“Eu entrei na universidade com 42 anos. Então, eu era o tiozão da turma, mas, como eu já vinha de uma trajetória do campo de públicas, foi um processo mais fluido. Eu segui trabalhando: às vezes, eu chegava de viagem e já tinha que correr para a universidade. Foi bem puxado”, disse.

Joelmir relata que, a exemplo dele próprio, vários de seus colegas egressos de administração pública da UFCA efetivamente ingressaram em instituições públicas e em organizações da sociedade civil, após a formatura.

“Eles estão em prefeituras, em câmaras municipais, em organizações da sociedade civil e estão lá porque passaram por este curso. É um curso que, ao mesmo tempo em que permitiu que os nossos egressos pudessem entrar com mais certeza no mundo do trabalho, é também um curso que tem contribuído para qualificar a gestão pública a partir da contribuição desses profissionais”, reflete.

Joelmir retornou para a universidade como professor substituto do curso em que se formou, em duas oportunidades: de 2018 a 2020 e de 2024 a 2026. No intervalo entre as experiências como professor, cursou mestrado em desenvolvimento e gestão social na Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Então, na UFCA, ele foi colega de vários de seus professores dos tempos de graduação. Um deles é o professor Eduardo Vivian, que ingressou na UFC Cariri em 2009, ainda no curso de administração. 

Eduardo compõe o grupo de professores que desenvolveu o primeiro Projeto Político-Pedagógico (PPP) do então futuro curso de administração pública, construído a partir de 2009. Além de Eduardo, o grupo era formado pelos professores Geovani Tavares, Valéria Giannella e Alberto Teixeira. Valéria Giannella hoje é docente na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) – instituição que nasceu na mesma data que a UFCA, em 5 de junho de 2013.

“Recebemos a missão de criar o primeiro PPP do curso. Então, foi uma oportunidade de, ao mesmo tempo, esses professores que chegaram construírem um curso que fosse a sua cara e que estivesse conectado com os debates mais recentes que estavam acontecendo no Brasil ”, reflete o docente. O PPP passou por revisão em 2016, ocasião em que o nome do curso recebeu o acréscimo “e gestão social”. Em 2026, o PPP passou por nova revisão, levada à consulta pública antes da aprovação.

Eduardo Vivian é docente da Universidade Federal do Cariri. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

“Quem imaginava, há 15 anos, quando esse curso começou, que nós tivéssemos que ter emergência climática como tema central da nossa formação? Quem imaginou que nós tivéssemos que ter, no nosso curso, 15 anos depois, a discussão sobre geopolítica num contexto radicalmente diferente de quando nós começamos? Nós não somos uma bolha: não dá para olhar para o território sem levar em conta o contexto mais global”, analisa Joelmir, sobre o novo PPP do curso (em construção no momento de escrita deste especial).

Para Eduardo Vivian, além das mudanças do contexto externo, a evolução do curso também reflete uma maturidade do grupo que faz essa graduação: “Eu percebo que houve um amadurecimento do corpo docente em relação à proposta do curso, um amadurecimento das práticas do curso, de estabelecer aquilo que está funcionando bem, e também dos próprios estudantes. Eu acho que hoje existe uma clareza maior do que é o curso, do profissional que a gente se propõe a formar”, acredita. 

Para Diego Coelho, professor do curso desde 2016 e primeiro egresso da UFCA do mestrado em desenvolvimento regional sustentável, um dos principais diferenciais dos estudantes do curso de administração pública e gestão social é conseguir dialogar com respeito, o que nem sempre é possível em outros espaços de debate. 

Diego Coelho é egresso do mestrado em desenvolvimento sustentável e professor do curso de administração pública da UFCA.
Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

“É uma aula muito interessante. Alguns estudantes chegam mais tímidos. Outros já têm um pouquinho mais de vivência e aí acabam discutindo mais, mas, conforme os semestres vão passando, eles vão ali ganhando confiança e aí os debates começam a ganhar corpo. O que eu percebo, ao menos nas minhas disciplinas, é que é sempre um debate que é guiado muito pelo respeito ao pensamento diferente. Isso é uma questão primordial na formação, porque a formação não é só para a questão técnica, mas também para a questão ética”, defende Diego.

Milanya Ribeiro, egressa de administração da UFC Cariri (2013) e atual docente de administração pública e gestão social da UFCA, considera que é importante para a formação dos futuros profissionais conseguir debater com pessoas de pensamento divergente.

“A gente não consegue eliminar o pensamento divergente. Isso não é interessante porque a diferença é justamente o que permite que a gente tenha mais repertório para resolver um problema. Acontece que, quando eu considero que essa diferença me impede de dialogar com o outro, aí eu desumanizo o outro e perco essa possibilidade de diálogo”, pondera a docente.

Milanya Ribeiro é egressa de administração da UFC Cariri e docente do curso de administração pública e gestão social da UFCA.
Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

Para Eduardo Vivian, acima de tudo, o curso de administração pública e gestão social é voltado a pessoas com algum afeto pelo coletivo e por transformações sociais: “Eu digo muito isso aos meus alunos. Esse é um curso para quem tem amor em trabalhar com o coletivo, com as coisas públicas, com o interesse público, com problemas públicos, ou seja: para quem quer mudar o mundo, né? Mas é preciso fazer isso com sabedoria também, para não sofrer demais”, reflete.

A matriz curricular original do curso de administração pública, de 2010, foi desenhada para oferecer formação híbrida entre a ciência política, a gestão pública tradicional e a gestão social (ver Campo de Públicas). Entre os objetivos do curso então recém-criado, destaca-se o de “oportunizar a formação de gestores com competências humanas, relacionais, técnicas e científicas, para atuarem em organizações públicas ou sociais”. 

Discussões teóricas no mundo e reflexos no Brasil

É antigo esse desejo por mudanças sociais a partir de uma sofisticação da administração pública, dos diferentes tipos de gestão coletiva e das políticas públicas.

No mundo, foi a partir do século 19 que surgiram estudos estruturados em que ferramentas de administração e de gestão interagem com a vida política. Esses movimentos são desdobramentos de discussões da filosofia e do direito administrativo, que culminaram na emersão de uma área mais específica. Esses estudos ganham tração a partir da primeira metade do século 20, culminando em um primeiro boom da área, nos anos 1950.

“Não sei se você sabe, mas os primeiros cursos de administração no Brasil eram cursos de administração pública, não eram cursos de administração. Os primeiros cursos que foram trazidos para o Brasil, entre os anos 1950 e 1960, eram feitos em parceria com outros países e se instalaram em grandes universidades do Brasil, como UFBA, FGV [Fundação Getúlio Vargas], Fundação João Pinheiro e várias outras”, detalha professor Eduardo.

Juscelino Kubitschek, 21º presidente do Brasil, hasteando a bandeira na inauguração de Brasília, em abril de 1960.
Foto: Fundo Correio da Manhã, sob a guarda do Arquivo Nacional.

Na Europa, o campo que reflete sobre esses assuntos pode ser reconhecido como public administration, public management ou new public management (em tradução livre do inglês, administração pública, gestão pública ou nova gestão pública, respectivamente). Na América do Norte, como public affairs (assuntos públicos). 

A partir dos anos 1980, a administração pública, em vários países, passou por um ponto de inflexão, principalmente devido à falência do modelo focado principalmente em burocracia (engessado e pouco eficiente). Nessa época, no Brasil, ganharam profundidade as reflexões sobre o papel da sociedade civil na gestão da coisa pública. A adoção de um modelo gerencial, em que o cidadão tinha papel central na cobrança de resultados, reflete essa mudança de paradigma.

“No Brasil, a Constituição de 1988 trouxe muito isso [papel da sociedade civil]. Então, a gente começa a debater a gestão pública e a gestão social (que é um debate novo também, que surge nesse período) a partir do olhar da sociedade civil. A ideia é pensar o público a partir do interesse público e não a partir do Estado. Perceba o deslocamento da visão: o foco se desloca do Estado para o propósito da existência da administração pública”, explica professor Eduardo Vivian.

Promulgação da Constituição de 1988, em sessão solene no dia 5 de outubro daquele ano, no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF. Foto: reprodução – TRT5

No entanto, uma maior participação da sociedade civil na administração e gestão públicas provoca reações de perfis mais autocráticos. 

Para Diego Coelho, a defesa da democracia deve ser uma luta constante, exatamente por causa dessas tensões entre polos mais ou menos afeitos a ela: “Nós temos ainda um processo que deve ser permanente em prol da democracia. Nós vimos, sobretudo, mais recentemente, os vários ataques às instituições desse campo democrático, a luta mesmo pela manutenção de direitos sociais”, disse. 

A dinâmica sociopolítica brasileira, historicamente instável, já levou a área de administração pública no Brasil a uma contração acadêmica, entre 1960 e 1980. No fim da década de 1980, havia apenas três cursos de administração pública no Brasil. O período coincide com o de Ditadura Militar (1964 – 1985) e, por isso, é possível supor que o ambiente político tenha contribuído para a diminuição do número de cursos na área.

Para Eduardo Vivian, em meio à disputa de narrativa entre polos democráticos e autocráticos, é uma decisão política dos gestores públicos incentivar (ou mesmo permitir) estudos que se posicionem criticamente sobre conceitos e práticas envolvendo administração pública ou ciência política, de forma transparente. 

“No contexto para frente, se a gente tiver governos que não favoreçam a universidade pública, não favoreçam esse debate transparente sobre política pública, gestão pública, sobre a coisa pública, a gente pode ter um [novo] revés”, acredita Eduardo.

Campo de Públicas

Para o público leigo, termos como administração pública, gestão pública, gestão social, políticas públicas e gestão de políticas públicas podem parecer sinônimos. Todas essas denominações têm de fato semelhanças entre si, mas tratam de objetos diferentes, sob um mesmo guarda-chuva teórico.

Em uma visão inicial dos primeiros estudos sobre administração pública, hoje menos adotada, esse título presume uma separação profunda entre função técnica e função política. Hoje, já se entende “administração pública” como fazer funcionar a máquina pública compreendendo o papel de diversos atores nesse processo (agentes governamentais, agentes empresariais e setores da sociedade civil).

“A própria terminologia usada para se referir aos processos de governo manifesta estas evoluções através da aparição de conceitos como os de governança, de gestão pública e gestão social, no lugar da tradicional univocidade do conceito de Administração Pública”, diz a versão de 2016 do PPP do curso de administração pública da UFCA.

O professor e sociólogo baiano Guerreiro Ramos, que propôs uma sociologia da administração pública adaptada à realidade brasileira, durante palestra realizada na cidade do Rio de Janeiro, em 1958. Guerreiro trabalhou na Casa Civil durante o segundo governo Getúlio Vargas e foi um dos principais pensadores da questão racial no Brasil. Foi suplente do deputado federal Leonel Brizola, assumindo o mandato em 1963. Foto: Arquivo Estadão Conteúdo/AE.

Administração pública não é o mesmo que gestão pública ou gestão social. “Gestão” deriva do latim genere, que significa conduzir. No contexto aqui abordado, relaciona-se a uma condução estratégica dessa máquina pública na direção de resultados almejados coletivamente. 

É por esse motivo que incluir, na revisão do PPP, o termo “gestão social” no título do curso de administração pública da UFCA não foi um detalhe, já que a gestão social é uma maneira específica de gerir em coletivo: “É um jeito de fazer gestão que se baseia em alguns princípios: diálogo, democracia efetiva, participação, tomada de decisão coletiva e emancipação”, explica Joelmir Pinho. 

Milanya Ribeiro acredita que um bom profissional precisa transcender o domínio de técnicas, uma vez que atingir os objetivos do interesse público exige uma contínua sofisticação do modo de fazer.

“Qual é o objeto de estudo dentro da administração pública? O interesse público! Se a gente for pensar nisso apenas pela aplicação de técnicas e de ferramentas, certamente a gente vai ter um empobrecimento na formação. Quando a gente tem uma ótica voltada para a sociedade, para a perspectiva do coletivo, e tem diversos atores pensando o interesse público, a gente tem ganhos aí para as decisões públicas”, defende professora Milanya. 

Especificamente no Brasil, esse campo teórico foi batizado, em 2010, durante uma audiência pública do Conselho Nacional de Educação (CNE), como “campo de públicas”. Essa denominação teve a intenção principal de diferenciar o trabalho acadêmico desenvolvido sob esse prisma daquele realizado na esfera empresarial/organizacional, por estudiosos da administração e da gestão. 

Professora Tânia Fischer (UFBA) realiza palestra, em junho de 2025, em Goiânia-GO, durante evento da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad), da qual já foi presidente. Tânia é uma autora contemporânea referência nacional na área de gestão social. A autora define esse termo como “gestão do desenvolvimento social”.

“Esse campo estava amadurecendo nesse período e se renovando. Existiam poucos cursos de administração pública no Brasil até o início dos anos 2000. No início dos anos 2000 até 2010 houve um [novo] boom nessa área, uma renovação das discussões”, disse Eduardo.

Ainda em 2010, no Brasil, houve a aprovação de Diretrizes Nacionais Curriculares (DNCs) específicas para a administração pública, porém, elas só foram homologadas pelo Ministério da Educação (MEC) quatro anos depois, em 2014. As DNCs são parâmetros estabelecidos pelo MEC para apoiar o planejamento dos currículos nos sistemas de ensino.

Até a homologação das DNCs da área, o curso de administração pública em construção na UFC Cariri precisou seguir DNCs que regiam os cursos de administração. Depois, com o curso já em funcionamento, foi necessário revisar o PPP da graduação, adotando as DNCs adequadas.

Aprovação do curso

Em agosto de 2010, durante a aprovação do primeiro PPP do então novo curso junto ao colegiado, a proposta era criar um bacharelado em “gestão pública e social”. 

Na ocasião, a Pró-Reitoria de Graduação da UFC, além da ressalva da inexistência das DNCs específicas, ponderou o fato de que esse termo não constava, à época, nos referenciais de nomenclaturas de cursos superiores da Secretaria de Ensino Superior do MEC (Sesu/MEC). 

A solução então foi criar um curso com nome “administração pública”, e o termo “gestão pública e social” daria nome à ênfase. Assim, o curso, com novo título, seguiu para aprovação no Conselho Universitário, sendo oficialmente criado, por meio da Resolução Nº 28/Consuni, de 30 de setembro de 2010. 

“Nós [curso de administração pública e gestão social] trabalhamos elementos da administração, só que com uma especificidade que, em um curso de administração, não é possível tratar – porque o curso de administração é mais abrangente e o curso de administração pública é mais específico. A função principal da máquina pública é atender uma demanda, que vem da sociedade. Então, se a gente pensa apenas em manter uma estrutura funcionando, a gente não consegue atender as demandas da população”, explica professora Mylania. 

“Isso tudo reforça essa importância da UFCA”

“No campo de disciplinas que eu atuo, que é o ligado às políticas públicas, nós discutimos desde os fundamentos das políticas públicas, passando também pelo planejamento, gestão, indo até mesmo à questão da análise da avaliação das políticas públicas, para entender perfeitamente como as políticas públicas impactam no nosso dia a dia. Porque em tudo que a gente está vinculado, tem uma política pública ali para dar um suporte, para dar uma base”, defende Diego.

Um exemplo de resultado de política pública que impacta diretamente a comunidade universitária da UFCA é a própria existência de uma universidade federal no Cariri – possível graças ao Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), que é uma política pública. A expansão da UFC para o Cariri de 2006 e a ampliação a partir de 2009 são frutos diretos dessa política. 

Diego Coelho, que integrou a coordenação dos trabalhos de revisão e de atualização do Plano Diretor de Juazeiro do Norte e hoje é membro suplente do Conselho Estadual das Cidades, exalta a importância do curso da UFCA para a materialização de várias políticas públicas no Cariri, para além da presença em si da instituição.

“O curso protagonizou a revisão do plano diretor de um município como Juazeiro do Norte. Do mesmo modo, o curso atuou na revisão e no processo de consultoria do Plano Diretor de Várzea Alegre. Nós tivemos uma atuação, junto ao Ministério do Desenvolvimento Regional, com uma série de parcerias, de estudos voltados para a governança metropolitana. Então, isso tudo reforça essa importância da UFCA e como a UFCA, por meio do curso de administração pública e gestão social, ela está chegando, ela está apoiando as prefeituras, o governo do estado, o governo federal, o planejamento, a gestão e a organização”, enumera Diego.

O docente reafirma a importância de profissionalizar os gestores públicos, sejam de cargos técnicos ou eletivos. Para Diego, o fato de a visibilidade de pessoas ter se tornado um dos principais critérios para ocupação de cargos eletivos, em detrimento de fatores como experiência e formação, merece reflexão coletiva.

“Então, quando a gente fala em profissionalização da gestão pública, reside muito nesse sentido de fazer com que as pessoas que hoje estão dentro da gestão pública elas tenham um conjunto de expertises, de habilidades, que hoje muitos daqueles que ocupam esses cargos públicos não têm. Então, hoje a gente vivencia, inclusive, um boom mesmo de candidaturas de pessoas que têm uma visibilidade em redes sociais e que muitas vezes elas vão entender muito pouco sobre o que é a gestão pública e sobre a importância do cargo que elas hoje representam. Então, aí reside a importância de nós estarmos aqui comemorando os 15 anos de um curso como o nosso. Temos a certeza de que um profissional que sai daqui é um profissional qualificado para ocupar todos os cargos relacionados à gestão pública”, acredita Diego.

Mulheres na Administração Pública e na Política

Na conversa com a Dcom/UFCA, professora Milanya Ribeiro, que é da região do Cariri, comentou sobre o debate a respeito da legitimidade das políticas afirmativas e do incentivo à representatividade nos espaços públicos – tema que considera “importantíssimo”. Para Milanya, a diversidade e a inclusão trazem ganhos para a administração pública e para a gestão social, pois as experiências específicas desses grupos enriquecem a atuação junto à coisa pública e, assim, melhoram as entregas à população.

“Eu costumo dizer para os estudantes o seguinte: a gente sempre pensa no político corrupto ou no gestor corrupto. Gente, tem muita gente que não é corrupta e que quer fazer um excelente trabalho. Essa pessoa, esse profissional, por mais bem intencionado que ele seja, ele tem uma limitação, que é a limitação das suas vivências, do seu conhecimento. Ele pode ter uma excelente formação, ele pode ser extremamente aplicado naquela atividade, mas ele tem uma limitação, que é de conhecer as necessidades e as demandas”, disse. 

No caso específico da participação feminina, conforme Milanya, o curso de administração pública e gestão social da UFCA já tem predominância de mulheres no corpo discente – segundo ela, todas “muito politizadas”. Isso reflete, segundo a docente, o fato de que, no Brasil, as mulheres já têm mais anos de estudo que os homens.

“A gente tem uma turma hoje que é formada só por mulheres: é a turma do terceiro semestre. Eu digo que são ‘as minhas meninas’. Inclusive tem uma orientanda agora que está estudando sobre a atuação das mulheres no legislativo em um município aqui do interior, que eu até digo a ela que a gente precisa expandir essa pesquisa para outros municípios, porque o intuito é ter um mapeamento dessas mulheres [atuantes na política]”. 

Mesmo havendo cotas de inserção feminina na máquina pública e na política, Milanya percebe lacunas para a inserção de mulheres na política e na gestão pública: “Existe o cumprimento da cota, mas não necessariamente as mulheres estão ali como efetivas candidatas, por exemplo. Ou quando elas efetivamente são eleitas, como elas lidam com o dia a dia de um ambiente predominantemente masculino? Então tem essa discussão e essa minha orientanda está aí trabalhando esse tema. Vai sair um trabalho muito interessante”, acredita.

Projeto Cultura Sustentável

Maria Isabel, apresentada no início deste especial, explica que, na UFCA, em 2014, cursou uma disciplina chamada Tutoria Transversal Cooperativa. Segundo ela, a proposta da disciplina era trabalhar com comunidades, para que o conhecimento construído a partir desse encontro com a universidade contribuísse para o desenvolvimento delas.

“Todo mundo detestou essa disciplina. Só eu que fiquei encantada e, dessa disciplina, eu criei um projeto chamado ‘Cultura Sustentável’. Era um projeto que criava uma rede solidária no Alto da Penha”, detalha.

A iniciativa – que começou com um incentivo à coleta de materiais recicláveis e se ramificou em diversas outras realizações de impacto, no bairro Alto da Penha – foi tema de trabalhos acadêmicos e de reportagens na imprensa caririense. 

O projeto também recebeu prêmios e outros reconhecimentos públicos, entre os quais Maria destaca uma fala, realizada de forma remota, durante a abertura do evento “Ela Faz”, promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, em setembro de 2020, com apoio da ONU Mulheres.

Conforme Maria Isabel, em 2016, o Alto da Penha vivia transtornos sociais envolvendo fome, lixo e arboviroses transmitidas pelo mosquito aedes aegypti (dengue, zika e chikungunya). Refletindo sobre esse contexto, Maria teve a ideia de incentivar a coleta de materiais recicláveis no bairro, por meio da troca deles por alimentos.

População do bairro Alto da Penha, em Crato-CE, troca materiais recicláveis por alimentos, em meio ao projeto Cultura Sustentável. Foto: arquivo pessoal – Maria Isabel Bezerra

“Eu estava conversando no bairro sobre os problemas do Alto da Penha e uma pessoa de fora, que estava nessa conversa, ofereceu R$ 30,00 para o projeto. Aí, um empresário local ouviu e disse que dava mais R$ 30,00. Então, começamos”, lembra.

Segundo Maria, ela somou o dinheiro das doações a recursos próprios e, com o montante, comprou alimentos como banana, arroz e cheiro verde.

“Eu comprei R$ 130,00 dessas coisas e botei na minha porta. Passava uma pessoa na rua e eu perguntava ‘Tem lixo na tua casa? Traz! Vem trocar por banana’. Eu lembro que a primeira mulher disse assim: ‘É pegadinha, é?’. Essa mulher saiu falando; depois, veio outra pessoa; depois, outra. Ao meio-dia, já havia terminado as coisinhas. Aí, eu fui dizendo ao pessoal: ‘Olha, sábado tem de novo’”, recorda.

Maria Isabel conta que ela vendeu o material recolhido para a Associação dos Agentes Recicladores de Crato (AARC). Com o dinheiro, Maria comprou novos alimentos e ofereceu novamente, na porta de casa, para a comunidade – o que se repetiu várias vezes: “A gente conseguiu reduzir os focos de dengue no Alto da Penha em 90%. Aquele discurso ‘Me dê um arroz, que eu estou precisando’ não existia mais”, lembra Maria.

Com o tempo, o projeto escalou. A feira saiu da casa de Maria e migrou para um espaço maior, cedido pela prefeitura do Crato. Também por meio do projeto, foi criada, no Alto da Penha, uma moeda social chamada “cafundó”, distribuída aos sábados, valendo R$ 1 cada.

Com o estabelecimento do cafundó, era possível trocar os recicláveis não só por alimentos, mas por outros materiais e por diversos serviços no bairro que aceitavam a moeda – fossem oferecidos por particulares ou por pequenos comerciantes. A troca só era possível aos sábados, em horário restrito, para evitar usos indevidos do cafundó.

“Detalhe: daquela disciplina [na UFCA], eu fui a última pessoa a entender o que é uma moeda social. A professora Valéria Giannella teve uma paciência incrível”, disse Maria.

Os números do Cultura Sustentável impressionam: foram mais de 28 toneladas de recicláveis arrecadados, que se converteram em 28 toneladas de alimentos distribuídos. Além disso, a partir da experiência, foram criadas diversas iniciativas no Alto da Penha, de âmbito social e cultural.

Com a convivência com o trabalho da mãe, as filhas de Maria Isabel, Flávia e Sara, acabaram aprendendo sobre moeda social e outros dispositivos de gestão coletiva. Flávia acabou ingressando também no curso de administração pública e gestão social da UFCA, concluindo a formação em 2026 e já foi aprovada em um concurso público, para a Polícia Civil. Sara está cursando pedagogia na Universidade Regional do Cariri (Urca).

Flávia (ao centro da foto), filha de Maria Isabel Bezerra, é egressa do curso de administração pública e gestão social da UFCA e ingressou na polícia civil no Ceará em 2026. Foto: arquivo pessoal – Maria Isabel Bezerra

“Sabe qual a principal lição que eu tirei no curso de administração pública? Que nós não somos o que sabemos ou o que temos, mas o que fazemos com o que temos e sabemos. Eu amo esse curso!”, declara Maria Isabel.

O que o curso tem a comemorar?

Olhando para trás, me dá uma satisfação de ter participado do início do curso, de ver o que esse curso é hoje. Muita coisa que a gente sonhou lá no início acabou se concretizando; outras coisas acabaram se ajustando, mas esses ajustes não são perdas: são coisas que fazem parte do processo de aprendizado. Esse espírito de aprender e de ajustar eu sinto que é presente tanto nos professores quanto nos estudantes do curso. Há um certo espírito de tentar coisas novas.

Eduardo Vivian
Docente CCSA/UFCA

Ele é um dos cursos pioneiros no Brasil. Apesar de a gente [país] ter iniciado a [oferta de cursos de] formação em administração pública lá na década de 1930, ao longo dos anos, essa estruturação se perdeu. Há uma outra questão: é pensar que esse curso está no interior. Há grandes cursos de administração pública em grandes centros urbanos e a gente tem um curso aqui, no interior, podendo formar pessoas dos mais diferentes municípios, para atuação na administração pública – seja do Cariri, de Pernambuco… Então isso eu acho que são questões a comemorar.

Milanya Ribeiro
Docente CCSA/UFCA

Eu espero que a gente consiga ampliar o número de vagas ofertadas. Eu espero que a gente continue debatendo com qualidade temas atuais da gestão pública, políticas públicas, corrupção na máquina pública, desafios em tempos de inteligência artificial, pensando a gestão pública não só a partir desse olhar voltado para o Estado, mas pensando mesmo as organizações da sociedade civil. Então, é pra celebrar muito, porque nós temos um curso de qualidade, um curso que, inclusive, em alguns momentos, já foi um dos dez melhores do Brasil. É para celebrar esses 15 anos e que venham mais 15, mais 30, mais 50.

Diego Coelho
Docente CCSA/UFCA

A universidade veio dar um sentido para uma frase que eu cresci ouvindo do meu pai: ‘o conhecimento transforma’. Eu olhava para a minha comunidade e dizia: ‘nunca transformou’. Então, eu ouvia aquilo como praxe. A partir da experiência na universidade, eu vi que de fato transforma. Além do acolhimento que eu tive, em um momento muito difícil e que muita gente tem na universidade. Parabéns a todos os professores, pela importância, pela representatividade. Que Deus abençoe e que vocês continuem, pelo viés da educação e do afeto, contribuindo para o desenvolvimento sustentável e, acima de tudo, para o desenvolvimento humano.

Maria Isabel Bezerra
Egressa do curso de administração pública e gestão social

O curso tem uma trajetória de 15 anos: a gente aprendeu muito nesse processo, mas a gente ainda tem muito a aprender, porque é um aprendizado que é permanente. Certamente, daqui a 10 anos, nós vamos olhar para esse PPP que está sendo construído agora, que a gente entende como revolucionário, como algo que precisa ser revisto, porque a vida é muito dinâmica. Acho que o curso vai ser sempre desafiado. Talvez, daqui a 10 anos, a gente possa olhar para esse projeto e entender que fizemos o melhor que a nossa humanidade permitiu neste momento, mas entender também que é preciso aprimorá-lo sempre.

Joelmir Pinheiro
Egresso do curso de administração pública e gestão social

Serviço

Curso de Administração Pública e Gestão Social
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