Especial Biblioteconomia 20 anos

Publicado em 03/11/2026. Atualizado em 04/11/2026 às 09h44

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Não é um curso de elite. Não é um curso que você diga assim: ‘o meu sonho é que meu filho ou que a minha filha seja bibliotecário ou bibliotecária’. Entretanto, é um curso que trabalha com a principal matéria que a gente tem hoje na sociedade, que é a informação.

Professora Cleide Bernardino recebe a reportagem da Diretoria de Comunicação da Universidade Federal do Cariri (Dcom/UFCA) em seu gabinete, no bloco M do campus Juazeiro do Norte, com o conteúdo de quem testemunhou toda a trajetória dos 20 anos do curso de biblioteconomia da universidade (cujas atividades começaram quando o atual campus-sede da UFCA sequer existia). 

A longa conversa – da qual foi destacado o trecho acima – trouxe memórias que vieram acompanhadas de diferentes sentimentos, como a alegria da posse como docente, em agosto de 2006, e a dor da perda da ex-professora da UFCA e ativista do movimento negro Joselina da Silva, falecida em junho de 2025. Para Cleide, Joselina foi um “exemplo de pessoa” e “uma amiga muito querida”, com quem aprendeu muito (ver Joselina da Silva). 

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Professora Cleide Bernardino, em 2026. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

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Cleide e Joselina, ao lado dos professores Modesto Rolim (falecido em outubro de 2022), Ariluci Goes Elliot e Fanka Santos, compuseram o primeiro grupo de docentes do então novo curso – instalado no Cariri, no segundo semestre de 2006, pela Universidade Federal do Ceará (UFC). 

Do grupo, apenas Ariluci e Cleide (que hoje dividem o gabinete do bloco M) tinham graduação em biblioteconomia. Modesto tinha graduação em psicologia (e doutorado em ciências da saúde). Joselina e Fanka se formaram em letras. Apesar da área da graduação, Joselina trilhou carreira acadêmica no campo das ciências sociais, até o doutorado (concluído em 2005). Fanka já havia feito mestrado em sociologia e concluiria, em 2009, doutorado em literatura e cultura. 

20 anos depois, a Dcom/UFCA inicia, com o curso de biblioteconomia, uma série especial que rememora o percurso de cinco cursos instalados pela UFC no Cariri em 2006: biblioteconomia, administração, engenharia civil, filosofia e agronomia. O especial começa nesta quarta-feira, 4 de novembro de 2026, após o período de defeso eleitoral.

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Interiorização da UFC e implantação do curso

A UFC iniciou sua interiorização com um curso de direito, em Sobral, na região Norte do Ceará, em 1998. Até então, a universidade mantinha cursos apenas na capital do estado, Fortaleza. Posteriormente, em 2001, a UFC implantou expansões de seu curso de medicina em duas cidades cearenses: Sobral, na Região Norte, e Barbalha, no Cariri. A UFCA também produziu, em 2021, uma série especial sobre os 20 anos do curso de medicina na região.

Em 2003, o governo federal iniciou um projeto piloto para interiorização das universidades e dos institutos federais – cuja experiência basearia, anos mais tarde, o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), formalmente implementado em 2007.

Ainda antes do Reuni, o governo federal passou a priorizar o repasse de recursos para projetos de interiorização do ensino superior. Dessa forma, as universidades federais referência em seus estados preparavam propostas de implantação de novos cursos e as submetiam à apreciação do Ministério da Educação (MEC). 

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Aula da primeira turma de biblioteconomia da UFC Campus Cariri. Foto: acervo pessoal – Ariluci Goes Elliot

O MEC, a depender do potencial de impacto dos cursos propostos, destinava recursos “carimbados” para a implantação deles, ou seja: repassava às instituições de ensino uma verba que não poderia ser usada para outra finalidade que não a implementação dos cursos em questão.

Para a UFC, o Cariri era um lugar estratégico para expandir. A região, que já sediava desde 2001 uma expansão do curso de medicina da instituição, é um importante centro cultural cearense, em pleno crescimento econômico (já naquela época, mas ainda hoje), com cidades de porte médio. A escolha dos cursos para o Cariri considerou as demandas locais por profissionais qualificados e as condições da própria UFC de instalar novos cursos. 

No caso do curso de biblioteconomia, a formação viria para o alcance de três objetivos principais: apoiar a expansão da educação caririense (formando profissionais para atuação nas bibliotecas das novas escolas, faculdades e universidades); atender à demanda por gestores da informação em diferentes segmentos do mercado e organizar o acervo de memória do Cariri.

Criação do curso e primeiros passos

Wagner Chacon é docente do curso de biblioteconomia da UFC desde 1992. Durante a implantação do curso de biblioteconomia no Cariri, o professor tinha acabado de assumir a coordenação do curso em Fortaleza e integrou a comissão criada para acompanhar esse processo.

Ele relata que, em 2006, quando a UFC funcionava sob a gestão do reitor René Barreira, a então diretora do Centro de Humanidades, professora Maria de Fátima Oliveira Costa, informou o colegiado do Departamento de Ciências da Informação sobre a criação de um campus avançado da UFC no Cariri.

Wagner Chacon é docente da UFC, em Fortaleza. Foto: Wagner Chacon

“Naquela mesma ocasião, ela também consultou o colegiado sobre o interesse em criar um curso de biblioteconomia para funcionamento na região do Cariri. A proposta foi aceita e foi formada uma comissão para a elaboração do Projeto Pedagógico de Curso”, lembra Wagner.

Com a resolução que oficializou a criação do curso de biblioteconomia no Cariri, de fevereiro de 2006, começaram os preparativos para os primeiros concursos para docentes. Wagner lembra que chegou a participar de algumas bancas desses concursos, quase todos realizados em Fortaleza.

Como exercia a função de coordenador do curso no Cariri, coube ao professor a função de tutor dos docentes que assumiriam as aulas na região. As atividades dessa tutoria duraram cerca de dois anos, entre idas e vindas de Wagner ao Cariri.

“Recordo-me que, tanto antes quanto depois da fase de ocorrência dos concursos iniciais, desloquei-me algumas vezes para o Cariri, em comitiva, para visitar as instalações do campus Pirajá, cedidas à UFC pela Urca [Universidade Regional do Cariri]; bem como para visitar o terreno onde hoje se encontram as instalações [do campus-sede] da Universidade Federal do Cariri”, relembra Wagner.

Da esquerda para a direita, Cleide Bernardino, Fanka Santos, Ariluci Goes Elliot e Joselina da Silva: as docentes selecionadas para o curso de biblioteconomia da UFC Cariri, em 2006. Foto: acervo pessoal – Ariluci Goes Elliot

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“Dizem que ali vai ser o campus da UFC em Juazeiro”

“O prazer é todo meu de estar aqui, falando dos 20 anos do curso de biblioteconomia”, inicia Ariluci Goes Elliott, no já citado gabinete do bloco M. Natural de Fortaleza, Ariluci era bibliotecária da Casa da Indústria quando soube do concurso para ingresso na UFC, em um campus que seria implementado no sul do estado. 

Após prestar concurso para docente da UFC, na área de estudo Organização e Tratamento da Informação, Ariluci, que nunca havia estado no Cariri antes, já veio procurar um lugar para morar: “Eu amei [o Cariri] assim que cheguei! Nossa posse [do concurso] foi em 17 de agosto de 2006. Logo após, eu vim para conhecer a região, para ver um local para ficar e, em setembro, começaram as atividades”, recorda.

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Professora Ariluci, em 2026. Foto: Gabriel Souza – Dcom/UFCA

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À época, a UFC não dispunha, no Cariri, de uma infraestrutura de campus. O já implementado curso de medicina na região funcionava nas instalações do antigo colégio Santo Antônio, em Barbalha (doadas para a UFC pelo governo do estado, sem contrapartida, em 2000). O local não tinha condições de comportar mais cursos.

Com isso, a Universidade Regional do Cariri (Urca) cedeu para a UFC um espaço em Juazeiro do Norte, no bairro Pirajá (em frente à Praça Antônio Ribeiro de Melo, conhecida como Praça do Mateu), para a realização das aulas. O “campus Pirajá” da UFC funcionou entre setembro de 2006 e agosto de 2008, quando foi inaugurada a primeira etapa do atual campus Juazeiro do Norte da UFCA, no bairro Cidade Universitária. 

Para o funcionamento do curso de agronomia, especificamente, foram cedidos para a UFC espaços no primeiro andar do campus Pimenta da Urca, no Crato. Após a inauguração do campus Juazeiro, o curso foi realocado e funcionou junto às demais graduações até a entrega, em 2011, da primeira etapa do campus Crato. Com o novo campus, o curso de agronomia voltou para o Crato, onde funciona até hoje. 

Por ter chegado ao Cariri um mês antes do início das aulas da UFC, Ariluci viu as condições do espaço da universidade no Pirajá antes das adequações estruturais realizadas no local para a recepção dos estudantes. 

“[A primeira impressão] foi horrível, mas horrível por quê? Como eu cheguei cedo, [o espaço das aulas] estava muito feio, com mato acima do muro. Você chega a um interior que você não conhecia e dizem que ali vai ser o campus da UFC no Juazeiro. Eu disse: ‘Não, não vai ser aqui. Será que enganaram a gente? Eu não acredito que eu vou trabalhar aqui’”, relembra, aos risos, explicando que o espaço foi preparado para as aulas posteriormente, pouco antes do início das atividades acadêmicas.

“Quando começaram as aulas, já estava tudo muito limpinho, mas era tudo muito antigo, porque era um prédio muito antigo”, explica Ariluci.

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Os docentes que haviam ingressado na UFC especificamente para atuação no Cariri  participaram de um curso para formação e acolhimento de novos docentes da universidade, chamado Comunidade de Cooperação e Aprendizagem Significativa (CASa). Ao fim do programa, que durou um ano, professora Ariluci foi indicada como primeira coordenadora do bacharelado em biblioteconomia no Cariri. 

“O nosso PCC era o mesmo do curso de Fortaleza. Durante esses anos, a gente vem melhorando esse PPC e agora, em 2026, nós vamos publicar o novo PPC do curso. A gente estava prevendo – até porque a gente queria muito – que viriam os cursos de arquivologia e de museologia. Então, esse novo PPC foi pensado para que os cursos da área de ciência da informação da UFCA tivessem uma matriz curricular com algumas disciplinas em comum, de modo que os estudantes desses três cursos pudessem fazer juntos essas disciplinas”, detalha Ariluci. 

Ariluci atuou ativamente para a criação do curso de jornalismo da UFC Cariri, cujas aulas começaram em 2010. A docente participou, ao lado da professora  Vilma Sudério (então vice-diretora do campus da UFC no Cariri), do desenvolvimento do primeiro PPC do curso, mesmo não sendo da área.

Curso Pioneiro na UFCA

Ariluci Goes ressalta que, ao longo dos anos, o curso de biblioteconomia vem acumulando feitos notáveis – como o pioneirismo, entre os demais cursos de graduação da UFCA, na instalação de um mestrado vinculado ao próprio curso (a primeira turma do mestrado em biblioteconomia da UFCA iniciou suas atividades em 2016). Além disso, é mérito do colegiado a aprovação de um doutorado, também em biblioteconomia, em 2025.

“Tanto o professor Jonathas Carvalho quanto a professora Cleide Bernardino foram os idealizadores [da pós-graduação em biblioteconomia]. Professora Cleide, que está conosco desde 2006, sempre instigou: ‘vamos fazer nosso mestrado, vamos fazer nosso doutorado’. Havia uma equipe por trás, mas, em nome dessa equipe, eu digo, em relação à pós-graduação, que a professora Cleide e o professor Jonathas são os nomes [principais]”, exalta a professora.

Professora Cleide Bernardino (à dir, com vestido estampado em tons de roxo e azul) e professor Jonathas Carvalho. Foto: reprodução – Facebook

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Conforme professora Cleide, o grupo que compõe o curso de biblioteconomia da UFCA é “muito bom”, acostumado a conversar dentro e fora da universidade.

Professor Jonathas Carvalho ingressou na UFC em 2009, para ministrar, no Cariri, disciplinas ligadas à pesquisa, no contexto da biblioteconomia. Atualmente, o docente trabalha na UFC, em Fortaleza, após redistribuição (concluída em 2025). 

Já professora Cleide segue docente da UFCA, atuando na graduação e na pós-graduação, em diferentes disciplinas. Na gestão da universidade, atua como titular da Secretaria de Ações Afirmativas, Diversidade e Equidade (Saade/UFCA). Fora da UFCA, Cleide é vice-presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciência da Informação (Ancib) e foi reconhecida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) com uma Bolsa Produtividade em Pesquisa (2025) – concedida a pesquisadores brasileiros com atuação científica destacada.

“Eu voltei do doutorado [em 2013, após afastamento] e aí, em uma dessas conversas, a respeito do curso, eu fiz um documento, que eu chamei de ‘Planejamento Estratégico do Curso de Biblioteconomia, de 2014 a 2020’, se não me engano. Aí, nesse documento, tinha a criação de grupos de pesquisa, a criação de uma especialização, a criação de um mestrado em ciência da informação (a proposta inicial era essa), a criação de uma revista científica… Eram várias coisas. Desse documento, tudo a gente contemplou, tudo a gente fez”, recorda Cleide. 

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A especialização a que a professora se refere é a de Gestão em Ambientes de Informação, já descontinuada. Já o periódico que foi proposto e implementado é a Revista Folha de Rosto. Recentemente, o periódico subiu, na classificação Qualis-Periódicos, da posição Qualis B3 (quadriênio 2017-2020) para a Qualis A3 (quadriênio 2021-2024) – estrato que indica qualidade consolidada, rigor avaliativo e reconhecimento nacional.

Ainda em 2025, o colegiado do curso de biblioteconomia comemorou outra conquista: o início das aulas dos novos cursos de graduação em arquivologia e em museologia. Os novos cursos, somados ao já existente curso de biblioteconomia, completam as três áreas clássicas do campo conhecido como ciência da informação. 

O curso de biblioteconomia, as novas graduações em arquivologia e em museologia, a consolidação do mestrado e a primeira turma do doutorado fazem da UFCA referência nacional em ciência da informação, sendo a única universidade do Norte e Nordeste (e uma das poucas do Brasil) a ofertar todas essas formações. 

Campus Pirajá

Desde a criação dos cursos anunciados pela UFC, já havia o projeto de construção do atual campus sede da UFCA. A limpeza do terreno, doado para a UFC pelo governo do estado,  no entanto, começou apenas em setembro de 2006, mesmo período em que iniciaram as aulas dos novos cursos na cidade.

Até 2006, o espaço cedido para a UFC pela Urca era utilizado como apoio administrativo e sediava equipamentos culturais – como a Lira Nordestina. A Lira, assim batizada pelo próprio Patativa do Assaré (1909 – 2002), herdou o legado da antiga Tipografia São Francisco: uma importante editora de cordel do Nordeste, do início do século 20. Hoje, é um equipamento que integra o patrimônio da Urca, com o objetivo de fomentar e celebrar a cultura do cordel no Cariri.

Campus Pirajá da UFC. Foto: acervo pessoal – Celme Torres

Além de equipamentos culturais e das atividades da universidade, o campus Pirajá também abrigou, na época, parte das aulas da Escola de Ensino Fundamental Demóstenes Ratts Barbosa, cujo prédio passou por problemas estruturais e precisou de reformas. Com isso, os estudantes da UFC passaram pela curiosa experiência de dividir o espaço onde a universidade funcionava com estudantes do ensino básico.

“Uma felicidade imensa”

“Deixa eu ajeitar, porque eu sou uma pessoa que usa crachá, viu? Adoro! Ando com o meu crachá para tudo quanto é canto”, disse Fanka Santos, antes de sua entrevista para a Dcom/UFCA, em uma sala de aula do Bloco I do campus Juazeiro do Norte.

Professora Fanka Santos, em 2026. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

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Fanka, que ingressou para o setor de estudo Fundamentos Teóricos da Biblioteconomia, rememora a mudança para o atual campus Juazeiro do Norte da universidade. Segundo ela,  um grande evento, com shows de artistas locais, reuniu diversas autoridades – com destaque para o então presidente da República, Luís Inácio Lula da Silva, e para a que seria a sua sucessora na Presidência, Dilma Rousseff.

“Teve uma grande festa. E chegamos aqui com uma felicidade imensa! Era uma oportunidade de expandir a região do Cariri com essa universidade”, recorda Fanka.

Para Fanka, o curso de biblioteconomia “cresceu muito” em relação ao contexto de 2006. A professora destaca o fato de atualmente quase todos os docentes do curso serem doutores (o que, para ela, marca o desenvolvimento e a maturidade do curso) e a busca por estabelecer parcerias capazes de fortalecer as ações acadêmicas da formação.

“O campo da biblioteconomia [da UFCA] expandiu muito, inclusive fazendo parcerias com a sociedade civil organizada. Nesse processo – e eu estive à frente de alguns –, foram doados acervos [para a universidade]. Foi o caso do professor Renato Casemiro [que foi da UFCA e hoje é aposentado], foi o caso também de Renato Dantas, de Daniel Walker, do grande poeta Pedro Bandeira”, elenca Fanka, fazendo referência a grandes memorialistas da região do Cariri.

Parte desses acervos doados para a universidade foi confiada ao Laboratório de Ciência da Informação e Memória (Lacim/UFCA), hoje coordenado pela egressa de biblioteconomia da UFCA Vitória Gomes, atualmente docente do curso, que também contribuiu para este especial. Em junho deste ano, o laboratório recebeu acervo de cordéis e xilogravuras da própria professora Fanka. 

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Este ano, Fanka encabeçou o grupo da UFCA que, em parceria com o Ministério da Cultura (MinC), fundou a primeira escola de cordel e xilogravura do Brasil, a  Escola Brasileira de Literatura de Cordel e Xilogravura (EBLCX). A iniciativa tem o objetivo geral de, por meio de atividades formativas, garantir a proteção de acervos existentes e, ao mesmo tempo, permitir que o cordel e a xilogravura sejam pensados e trabalhados em contextos atuais de produção.

Além desses temas, Fanka demonstra grande interesse em temas como sustentabilidade e questão climática, defendendo que a articulação dessas pautas com a biblioteconomia deve basear os próximos anos não apenas do curso de graduação, mas de toda a universidade.

“A gente tem que discutir cultura e meio ambiente. Então, eu acho que, para os próximos 20 anos (e espero que já para o próximo ano), a gente precisa entrar na questão da sustentabilidade prática. Eu acredito que a permacultura – que é um sistema de tecnologias sociais voltado para a melhora dos ecossistemas – vem entrar (no que depender de mim, cada vez mais) na biblioteconomia como solução, como uma proposta prática para ajudar não só a região do Cariri, mas o nosso planeta de uma maneira geral”, defende.

“Só tenho a agradecer”

Jorgivânia Lopes ingressou na primeira turma do curso de biblioteconomia da UFC Cariri em 2006, após prestar vestibular para a Urca e não conseguir a aprovação: “Fiquei um pouquinho triste, mas bola adiante e fui tentar a UFC”, lembra.

À época, os cursos disponíveis eram os quatro ofertados no campus Pirajá (agronomia funcionava no Crato): “eu escolhi pelo turno, porque meus pais não me deixavam estudar à noite. As opções então eram os cursos pela manhã: biblioteconomia e engenharia civil. Escolhi biblioteconomia porque eu não gostava da área de engenharia e, ao mesmo tempo, eu gostava de livros e de ler. Por isso que eu digo que, na verdade, foi a biblioteconomia que me escolheu”, brinca. 

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Jorgivânia Lopes é egressa da primeira turma de biblioteconomia da UFC Cariri. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

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Durante o curso, Jorgivânia ampliou sua visão sobre a biblioteconomia em si, que, diferentemente do que ela imaginava, não se restringe a livros ou a bibliotecas: “Não era um curso conhecido na região. Então, [eu descobri que] não é só livro, não é só estante. Tanto é que a minha monografia foi na área de tecnologia da informação, pela qual eu me interessava muito. A biblioteconomia é um mundo”, afirma a bibliotecária.

A monografia da profissional formada pela UFC Cariri tem o título “Proposta de Aplicabilidade das Ferramentas da WEB 2.0 na Biblioteca da Faculdade de Juazeiro do Norte”. O trabalho rendeu a Jorgivânia o prêmio de melhor monografia de 2009 do Centro de Humanidades da UFC.

“Acabei ganhando! O prêmio foi a publicação de 200 livros, com ISBN [código que identifica a obra, válido em 200 países]. Teve uma plaquinha [de reconhecimento]. Eu fui a única premiada do interior. Eu fiquei muito honrada”, recorda Jorgivânia.

Na mesma época, quando ainda não havia colado grau nem defendido a monografia, Jorgivânia alcançou aprovação em um concurso para bibliotecária na prefeitura de Juazeiro do Norte.

“Todo o corpo aqui da então UFC me apoiou para que eu defendesse a monografia em uma banca especial e fizesse colação de grau especial. Eles conversaram também com o Conselho Regional de Biblioteconomia (CRB), para a emissão da minha carteira profissional. Foi tudo muito rápido: em questão de dois meses, consegui reunir a documentação e tomei posse na Secretaria de Educação”, detalha.

Jorgivânia, que voltaria à universidade (na época, já UFCA) para cursar mestrado em biblioteconomia, rememora com orgulho da trajetória que teve início no campus Pirajá, no qual cada curso funcionava em apenas uma sala.

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“Nós não tínhamos laboratórios, mas nós éramos muito unidos para estudar. Havia também muita força de vontade por parte dos professores, que davam tudo de si. Eu lembro que, nas primeiras aulas de introdução à informática, a professora Ariluci desenhava os periféricos do computador no quadro branco, porque a gente não tinha ainda os equipamentos. Foi uma época difícil, mas a gente aprendeu. A gente foi a raiz desses frutos que estão aqui hoje, nesse mundo que é a UFCA”, acredita.

Hoje, após ter sido aprovada em outros concursos públicos, Jorgivania está lotada no campus Crato no Instituto Federal de Educação do Ceará (IFCE): “É um campus muito bonito. Vou todos os dias com muito amor para lá. Só tenho a agradecer por a biblioteconomia ter me escolhido”, finaliza.

“Você quer o melhor para a sua família”

Natural de São Paulo, Fabiana Lazzarin acompanhou a família, em 2005, até Fortaleza – cidade-sede da UFC. Na época, o marido de Fabiana, professor Antônio Carlos Alonge, da área de física, fixou-se na universidade cearense por meio do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Regional (DCR): uma iniciativa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) que visa deslocar pesquisadores doutores de grandes centros acadêmicos do Brasil para regiões com índices menores em desenvolvimento científico e tecnológico.

Em Fortaleza, Fabiana chegou a iniciar um curso de graduação na UFC, em letras-italiano, mas, após morar na capital cearense por dois anos, a família mudou-se novamente. Desta vez, o destino era Juazeiro do Norte, no sul do estado. Isso porque, para instalar cursos no Cariri, a UFC realizou uma série de concursos públicos para a contratação de docentes em áreas básicas, como física, e professor Carlos Alonge acabou aprovado em um deles. 

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Fabiana Lazzarin, egressa de biblioteconomia da UFC Cariri, é titular da Pró-Reitoria de Extensão da UFCA. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

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“Não conhecia a região. Não temos parente algum aqui, até hoje. Pegamos filho, minha mãe também, que era viúva. Nós chegamos com a nossa mudança toda dentro de um carro. Meu filho estava recém-operado. Ele tinha cinco anos. E foi assim que viemos para cá”, detalha.

Fabiana até já tinha ouvido falar de biblioteconomia, mas não conhecia de forma aprofundada essa área: “Uma colega de adolescência acabou fazendo biblioteconomia e as pessoas falavam que ela tinha se dado muito bem, mas eu não sabia qual era a atuação da área. Aqui, não tinha o curso de letras-italiano, então eu não poderia fazer a transferência para cá. Então, eu tinha algumas opções: filosofia, biblioteconomia (que talvez seria mais próximo). Eu optei por biblioteconomia e consegui a transferência [para cursar a graduação no Cariri]”, relata Fabiana.

Muito dedicada à vida acadêmica, Fabiana conciliou o curso de biblioteconomia com duas especializações, concluindo cada um dos cursos em períodos diferentes: “Na época, não tinha esse condicionante do MEC que era ‘você só pode fazer uma especialização após o término da graduação’. E aí eu concluí tudo isso e já comecei a dar aula”, disse.

Logo após o término da graduação, mantendo uma rotina de docente (com as credenciais de especialista), Fabiana começou um mestrado na Paraíba, o que fez com que a bibliotecária tivesse que conciliar uma rotina de viagens semanais para o mestrado, em outro estado, com as aulas que ministrava: “Seis meses depois que eu concluí o mestrado, ocorreu um concurso aqui [UFCA] para professora substituta. Passei os anos de 2015 e 2016 como professora substituta e, logo que eu termino o contrato, abre o concurso para professora efetiva”, lembra.

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Aprovada em primeiro lugar nesse concurso, em 2017, Fabiana chegou a ocupar alguns cargos de gestão na universidade antes do convite para assumir a Pró-Reitoria de Extensão (Proex/UFCA), feito pelo então reitor pro tempore, Ricardo Ness: “Eu já conhecia o professor Ricardo, mas porque ele era meu diretor de campus [no período em que Fabiana foi professora substituta]. Eu não esperava esse convite. Inclusive, quando ele me chamou para conversar na Reitoria, eu achei que eu havia feito alguma coisa errada”, recorda a docente, aos risos.

Assim, com apenas um ano como professora efetiva da UFCA, Fabiana tornou-se pró-reitora de Extensão – cargo que ocupa até hoje. Atualmente, Fabiana é discente do doutorado em biblioteconomia da UFCA e, dessa forma, mais uma vez, ela mantém uma rotina profissional desafiadora: “Eu acho que eu dou conta. Acho que eu não tenho nenhum problema com isso. Se uma hora eu resolver fazer a opção por isso [diminuir o ritmo de trabalho], não será por questões de muita demanda, mas por uma opção de vida e de família”, disse.

Em vários momentos da entrevista para a Dcom/UFCA, professora Fabiana cita a importância da família para sua trajetória, colocando essa dimensão da vida como fonte de propósito e de apoio.

“Para eu ter feito o que eu fiz, eu tinha que ter suporte familiar. Eu tive isso da minha família. A gente se dedica muito para a universidade, mas a família é imprescindível nesse processo. Você faz muita coisa, mas você tem que voltar para casa. Você estuda mais, mas porque você quer o melhor para a sua família. Foi por ela!”, disse, emocionada.

“Eu trabalhava onde só podia ficar sentada 30 minutos”

Apesar de, à época, não conhecer a área de biblioteconomia, foi esse o curso escolhido por Vitória Gomes no ano de 2012: o primeiro em que a UFCA utilizou o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). O curso em que acabou aprovada foi a segunda opção dela na seleção (a primeira foi zootecnia).

“Eu tinha uma condição socioeconômica muito vulnerável e aí eu ficava sempre pensando que eu precisava ter uma formação acadêmica que eu conseguisse conciliar com o emprego, porque eu precisava ajudar em casa”, recorda. Então com 16 anos, Vitória, cuja mãe atuava como empregada doméstica, trabalhava em uma cafeteria de Juazeiro do Norte quando ingressou no curso da UFC Cariri.

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Vitória Gomes é egressa de biblioteconomia da UFCA e hoje é professora do curso. Foto: Davi Moreira – Dcom/UFCA

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“Eu trabalhava de 14h a 22h. [Nesse tempo], só podia ficar sentada 30 minutos. Dormia muito pouco, porque eu tinha que acordar muito cedo, para pegar o [ônibus da] Viação Lobo [para ir para a universidade]. Às vezes, o ônibus parava no meio do caminho, por causa [da má qualidade] do calçamento, o que às vezes fazia com que a gente tivesse que fazer o resto do percurso caminhando”, relata Vitória.

Foi frequentando grupos de pesquisa da professora Joselina da Silva (ver Joselina da Silva), durante as folgas do trabalho, que Vitória conquistou uma bolsa remunerada de Extensão, o que a permitiu deixar o emprego (após conciliar as duas atividades por um ano) e se dedicar mais à universidade: “Quando essa bolsa surgiu, aí eu fui outra Vitória. Passei a participar de absolutamente tudo, a conseguir não estar tão exausta e a prestar mais atenção nas aulas”, disse.

Conforme Vitória, desde o primeiro semestre, ela decidiu que seria professora e pesquisadora da área. Sua dedicação à pesquisa, ao longo da graduação, contribuiu para que, à época da conclusão do curso na UFCA, Vitória já estivesse aprovada em um mestrado, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

“Entrei em 2012, saí em 2016. Aí, cursei [o mestrado] de 2016 a 2018 e, nesse intervalo, em 2017, eu fiz o concurso para professora efetiva aqui”, detalha Vitória. O concurso, já mencionado neste especial, foi o mesmo em que professora Fabiana Lazzarin foi aprovada, em primeiro lugar. Vitória, por sua vez, acabou em quarto lugar.

A então mestranda chegou a prestar outro concurso, em Rondônia, conquistando, por coincidência, também o quarto lugar. Como ainda não havia concluído o mestrado, ela aproveitou para se dedicar às atividades acadêmicas enquanto aguardava o surgimento de uma vaga nos concursos prestados: “Defendi [o mestrado]. Já estava aprovada no doutorado, na mesma instituição [UFPB]. Nesse intervalo, abriu a oportunidade de fazer uma seleção aqui [UFCA], para professora substituta. Nessa, eu passei em primeiro lugar”, disse.

Vitória então passou seis meses na UFCA como professora substituta, até que finalmente foi chamada pela UFCA para assumir o cargo de professora efetiva, por meio do concurso de 2017 (as pessoas que ocupavam a segunda e a terceira posições do concurso já haviam sido efetivadas em outras instituições).

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“Tô contando essa história para dizer que a minha história na UFCA teve um afastamento muito curto. Quando eu voltei para a sala de aula, cheguei a ser professora de alguns dos meus colegas de primeiro semestre. Quanto aos meus professores, que passaram a ser meus colegas de trabalho, eu sentia tanto uma responsabilidade quanto uma ansiedade muito grande, porque são pessoas que eu admiro e respeito. Foi um misto de emoções”, compartilha.

Hoje, a docente é coordenadora do já citado Laboratório de Ciência da Informação, Memória e Sociedade (Lacim/UFCA). Vinculado ao curso de biblioteconomia, o Lacim surgiu em 2009 (portanto ainda nos tempos de UFC), como um espaço tanto de memória quanto de práticas de ensino e pesquisa para o curso: “Eu me entendo, em primeiro lugar, como pesquisadora e, depois, como professora, porque eu acho que não dá pra ser professor sem ser pesquisador”, defende.

Por fim, Vitória acredita que o curso contribuiu muito para o desenvolvimento do Cariri, não apenas com a formação de profissionais gestores de informação, mas em termos de fomento à conservação de memória territorial. 

“A gente está falando de um território que é muito rico, tanto em acervos, mas também nessa dimensão de saberes e fazeres que não necessariamente estão nessa estrutura de informação e documento que a gente tradicionalmente conhece. Eu acho que a biblioteconomia, por trabalhar com informação e possibilidades de registro, ela contribui muito para a preservação, para a salvaguarda, para a documentação, que são fundamentais para garantia dessas práticas e saberes que são tão marcantes para a identidade do território”, analisa.

Joselina da Silva

Joselina da Silva marcou os espaços por que passou. Dedicada e exigente na mesma medida em que era amável e generosa (segundo pessoas próximas), Joselina chegou à então UFC campus Cariri já doutora em ciências sociais – portanto mais madura academicamente que boa parte dos demais professores do campus Pirajá.

“Foi uma professora que me incentivou a fazer a pós-graduação, porque eu não tinha nem mestrado nem doutorado. Ela é da área da sociologia: não tinha como ela não ser tão grandiosa dentro do nosso curso. Então, ela botava a sociologia para a gente e a gente colocava a biblioteconomia para ela”, relata Ariluci Goes.

Professora Joselina da Silva (dir.), com professora Virgínia Cavalcante (à época, docente do curso de administração da UFC Cariri), durante curso do projeto Iniciativas Negras. Foto: acervo pessoal – Reginaldo Domingos

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Joselina iniciou seu engajamento no movimento negro ainda nos anos 1970, em plena ditadura militar. Dedicou-se também a estudos de gênero, sendo uma militante do feminismo negro. 

“É uma pesquisadora que era conhecida no Brasil inteiro. Ela já tinha uma marca muito forte pelos estudos que ela desenvolveu, durante décadas, no âmbito das relações raciais e de gênero”, resume professora Vitória Gomes, que foi aluna e bolsista de Joselina.

Unindo de maneira fluida essas pautas à sua atividade acadêmica, Joselina pôs em prática o que hoje é conhecido como interseccionalidade: uma forma de analisar contextos complexos considerando os impactos de diferentes fatores de opressão ou de privilégio – como  raça, classe social, deficiência, gênero e sexualidade.

“Ela trouxe essa perspectiva interseccional quando a gente não falava disso ainda. Eu comecei a fazer a graduação em biblioteconomia em 2012. Esse conceito já existia, mas, naquela época, essa discussão de gênero, de movimentos sociais, a questão das opressões, de um modo geral, ela não era trabalhada de forma realmente permeada”, explica Vitória.

Para Cleide Bernardino, que se emocionou várias vezes ao falar da amiga e colega de trabalho, a experiência de Joselina impactou positivamente o desenvolvimento acadêmico dos primeiros docentes do curso.

“Eu cheguei muito verdinha: eu não era professora, eu era bibliotecária. Eu não sabia das coisas. E ela chega já doutora e já aprova projeto na Fundação Ford, aprova projeto na Funcap [Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico]. Ela me ensinou muito”, reflete Cleide.

Professora Joselina da Silva. Foto: reprodução – Facebook

Professora Joselina marcou especialmente o Cariri ao promover, com apoio da Ford Foundation, o evento “Iniciativas Negras: trocando experiências”. Em três edições (2007, 2009 e 2011), o evento selecionou pessoas negras (chamadas pelo projeto de “bolsistas”), oriundas de todo Brasil, para participarem de uma vasta programação, no Cariri. 

A ideia era pôr em contato ativistas, pesquisadores, estudantes e lideranças comunitárias (todos ligados ao movimento negro), fossem locais ou nacionais, para que trocassem experiências. Foi por meio desse evento que nomes como a escritora Sueli Carneiro e o ativista e pesquisador Babalawo Ivanir circularam pelo Cariri. 

Para Fanka Santos, o Iniciativas Negras credita a Joselina “uma importância histórica, não só na UFCA, mas no território como um todo”: “De repente, durante 10 dias, você via negros, em toda a sua cultura afrodescendente, com os cabelos, com as roupas… Toda uma cultura negra circulando aqui no Cariri. Então, assim, o impacto disso foi fundamental”, reflete Fanka.

“E Joselina foi quem trouxe para a gente a perspectiva da biblioteconomia negra. Dos estudos em epistemologia, hoje, a gente tem a professora Franciéle Garcês [-da-Silva], a gente tem a professora Leyde Klébia (que inclusive está aqui conosco, em cooperação), que estão estudando biblioteconomia negra. É tudo muito apagado, né? O que nós tínhamos de informação era uma biblioteconomia que vem da Europa, que vem dos Estados Unidos. E a gente olha e ela é toda branca, é toda hétero (pelo menos, supostamente)”, brinca Cleide Bernardino.

“O meu mestrado eu dedico a ela [Joselina], porque eu fiz uma dissertação voltada aos jornais da imprensa negra, uma análise do discurso desses jornais. E esses jornais pertenciam ao laboratório dela”, compartilha Ariluci Goes.

Joselina foi citada, durante a construção do especial de 20 anos dos cursos da UFCA iniciados em 2006 por professores de outros cursos da época – como a professora Regiane Collares e o professor Luiz Manoel, ambos do curso de filosofia. Todos que a citaram exaltaram a importante contribuição de Joselina em termos acadêmicos e, principalmente, humanos.

Professora Joselina da Silva com professor Modesto Rolim, durante evento na Urca. Foto: Reprodução – Facebook

Natural do estado do Rio de Janeiro, Joselina voltou para a sua terra natal em 2015, redistribuída para a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), onde lecionou até seu falecimento, em 2025.

“Para mim, é muito difícil falar sobre ela. Ela foi espelho, ela foi exemplo de pessoa”, afirma Cleide.

Em seu falecimento, diversas iniciativas do movimento negro, universidades, veículos de imprensa e órgãos públicos (entre eles, o Ministério da Igualdade Racial) emitiram notas de pesar, ressaltando a inestimável contribuição de Joselina para a ciência e para os movimentos sociais. 

Em nota, a UFCA destacou que “Joselina deixa um legado de muito valor, tecido com muita coragem e compromisso” e que “sua trajetória e potência seguirão presentes na memória e na atuação de todas as pessoas que tiveram o privilégio de aprender com ela e ao seu lado”.

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