No mês da Visibilidade Trans, UFCA cria comitê para debater, propor e acompanhar ações de diversidade sexual e de gênero

Atualizado em 24/01/2023 às 15h00

A Universidade Federal do Cariri (UFCA) criou, durante o mês em que se comemora o Dia Nacional da Visibilidade Trans, 29 de janeiro, o Comitê Permanente de Acompanhamento das Ações de Diversidade Sexual e de Gênero, o ComDiverso. A demanda surgiu a partir da discussão da implementação de banheiros sem gênero, a serem disponibilizados nos blocos usados pelo Instituto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes (IIsca/UFCA), no campus Juazeiro do Norte. O debate foi levado para o Conselho Universitário (Consuni/UFCA), em dezembro de 2022. 

O comitê, conforme determinação do Consuni, é composto por oito membros. Presidido pela professora Camila do Espírito Santo Prado de Oliveira, o ComDiverso tem na composição mais um docente – Tiago Coutinho (IIsca/UFCA) –, dois servidores técnico-administrativos – Márcio Gandhi Figueiredo Temóteo e Cauê Henrique Ayo Chaves Alves – e quatro discentes – Levi Costa Rabelo, Lazuli Tavares Saraiva, Auris Flor Maciel da Silva e Nise Esther Sidrim Mendonça Bezerra. As pessoas que estão fazendo parte do comitê já têm histórico de luta na causa.

Banheiros sem gênero e criação do comitê

A implantação de banheiros sem gênero foi uma conquista esperada pela comunidade LGBTQIAP+ da UFCA desde 2018, quando a instalação foi aprovada pelo IIsca/UFCA. A ação, fundamental para garantir um espaço universitário mais democrático, fomentou a discussão da importância de haver um acompanhamento mais próximo dessas pautas. A partir disso, o comitê foi criado para propor, executar e/ou acompanhar todas as ações e regulamentações internas ligadas à diversidade sexual e de gênero, no âmbito da UFCA. 

Camila Prado explicou que a proposta de resolução encaminhada para o Consuni previa inicialmente a criação de um comitê para acompanhar a implantação da pauta específica dos banheiros. “Na reunião do Consuni, ao ser debatida a resolução, Levi [representante discente] propôs, a partir das falas dos presentes, que o comitê tivesse uma função mais ampla de combate às opressões contra LGBTQIAP+, além da imediata implantação dos banheiros”, detalhou. Dessa forma, o Consuni decidiu aprovar um comitê permanente e não somente para a implantação dos banheiros. 

A primeira ação do comitê, portanto, será a criação de banheiros sem gênero, que está em andamento. Conforme a professora Camila Prado, ainda neste mês de janeiro, haverá reunião entre o comitê, a Diretoria de Infraestrutura (Dinfra/UFCA) e a Diretoria de Comunicação (Dcom/UFCA) para trabalhar na implantação dos equipamentos e na campanha de conscientização de toda a comunidade acadêmica sobre o tema. A expectativa é que, até o início do próximo período letivo, em fevereiro, os banheiros já tenham sido readequados. 

A proposta do comitê é que os banheiros sem gênero sejam implementados nos blocos C, E e G do campus Juazeiro do Norte, estruturas utilizadas pelo IIsca/UFCA. Conforme documento enviado para o Consuni, em cada bloco atualmente há quatro banheiros  – dois masculinos e dois femininos, no térreo e no primeiro andar. Dois banheiros serão transformados em banheiro sem gênero: um em cima e outro embaixo. Dessa forma, cada um desses blocos terá, além dos dois banheiros sem gênero, um banheiro masculino em cima e um feminino embaixo.

Assim, todas as pessoas – servidores/as, estudantes e visitantes – terão sempre mais de um banheiro disponível em cada bloco do IIsca. De acordo com documento do comitê, a transformação se dará por meio de mudança na placa de sinalização, substituindo a placa com gênero por um símbolo que represente a comunidade, que não reforce a binaridade de gênero e comunique corretamente o seu objetivo. 

Além da atuação do comitê nas ações e regulamentações internas ligadas à diversidade sexual e de gênero, no âmbito da UFCA, o grupo também será responsável por planejar e executar espaços formativos. A ideia é que sejam feitas formações contínuas voltadas para a toda a comunidade acadêmica sobre questões relacionadas ao tema. 

Importância do comitê

Lazuli Tavares Saraiva, estudante do segundo semestre de Filosofia da UFCA, membro do comitê e militante do Movimento Correnteza, é uma pessoa trans não-binária, ou seja, não se identifica como homem nem como mulher. Ele, que escolheu o pronome de tratamento masculino, apesar de preferir o neutro, já sofreu uma série de dificuldades dentro da Universidade, relacionadas à sua própria identificação. 

“Meus colegas, por exemplo, nem sempre me chamam pelo pronome masculino e dizem que ainda estão aprendendo, mas na verdade não tem nada de tão difícil em mudar o pronome de tratamento de alguém. Já ouvi falar que meus colegas têm medo de falar comigo, errar meus pronomes e eu brigar, sendo que essa briga da minha parte nunca aconteceu. As pessoas têm medo de uma imagem que criaram de mim, mas na verdade eu que tenho medo delas. Eu sou a minoria, eu que tenho uma expectativa de vida menor do que as pessoas cis [pessoa que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu]”, ressaltou.

O estudante reconhece que ainda falta acolhimento de muitas pessoas dentro da Universidade e por isso o comitê é tão necessário, principalmente para garantir a permanência de pessoas trans na universidade. “O ComDiverso é a força tarefa de estudantes, professores/professoras e técnicos/técnicas que vai incluir as pessoas trans na universidade a partir de ações afirmativas. É um espaço aberto para as demandas da comunidade trans e que, dessa forma, serão atendidas com feitos concretos e que vai garantir a permanência dessas pessoas na universidade”, destacou. 

Auris Flor Maciel da Silva, que também está no comitê, estudante do sexto semestre da Licenciatura em Filosofia, é uma pessoa transmasculina que entrou na UFCA em 2020. Ele acredita que, dentro da Universidade, já existe um espaço para discussão das pautas LGBTQIAP+, fruto do trabalho de estudantes de anos anteriores e da colaboração de alguns/algumas servidores/as. Mas ainda há muito o que avançar. 

“Sendo a universidade um lugar de formação importantíssimo e que tem por obrigação estar comprometida com o bem-estar e a boa convivência de sua comunidade, ela precisa estar atenta o tempo todo [ao fato] de que não são apenas pessoas cis, brancas e heteras que frequentam o espaço. E, portanto, assumir as lutas necessárias para manter a qualidade de vida de quem a habita”, ressaltou.

Para Auris, a discussão dos banheiros sem gênero, que deu origem ao comitê e mostrou a presença e a importância de pessoas LGBTs na UFCA, é imprescindível para a construção de uma cultura de respeito e de luta em uma universidade pública federal e deve servir de modelo para outras universidades e espaços públicos que ainda não tenham os banheiros sem gênero, nem espaços pensados para os corpos não hegemônicos.

“Acredito que [o comitê] atue criando e fortalecendo as ações de inclusão para todos os públicos e setores, mantendo o olhar atento aos acontecimentos do nosso ambiente e instaurando uma noção de compromisso coletivo para com as pessoas que compõem essa categoria de diversidade e com os movimentos estudantis”, afirmou. 

Serviço

Instituto Interdisciplinar de Sociedade, Cultura e Artes (IIsca/UFCA)
iisca@ufca.edu.br