Projeto atua com ensino de História e Cultura Africana em escolas de Brejo Santo

Atualizado em 22/11/2019 às 17h08

Foto: Davi Moreira/DCOM/UFCA

A população negra é parte considerável da construção social, cultural e econômica brasileira. No entanto, o país está longe de ser uma democracia racial. Um exemplo é o último dado divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pela primeira vez, os estudantes negros são maioria na universidade pública, somando 50,3% do total (pretos e pardos, pela terminologia oficial do instituto). Mesmo sendo maioria, a população ainda não é representada como deveria, já que atualmente equivale a 55,8% da população brasileira.

Outro exemplo é a falta de representatividade da história e cultura negra no currículo escolar. Na tentativa de reduzir a ausência desse conteúdo nas escolas, em 2003, foi sancionada a Lei nº 10.639 (link para uma nova página), que torna obrigatória a presença da temática História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial dos estabelecimentos de ensino fundamental e médio públicos e particulares. A legislação prevê que esse tema incluirá “o estudo da História da África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”.

Apesar de a lei ter sido sancionada há 16 anos, ainda existe dificuldade por parte das instituições de ensino de colocá-la em prática da forma mais adequada. No município de Brejo Santo, desde o ano passado, a Universidade Federal do Cariri (UFCA) tem trabalhado na tentativa de contribuir com a formação de professores e na conscientização dos estudantes sobre a temática. O projeto “A prática docente e a formação continuada: Lei 10.639/2003 e o ensino da História e Cultura Africana e Afro-brasileira”, ligado à Pró-Reitoria de Extensão (Proex/UFCA), e coordenado pelo professor Reginaldo Ferreira Domingos, do Instituto de Formação de Educadores (IFE/UFCA), fez uma parceria com a Secretaria de Educação do município para disponibilizar formação para docentes de escolas de ensino fundamental.

Formação de professores

A cada ano, de acordo com a responsável pela formação dos professores de Humanas no município, Fátima Teles, são feitas de seis a sete formações. Durante o ano de 2019 estão sendo trabalhados temas relacionados ao racismo. A cada encontro, a secretaria reúne os professores municipais da área de Humanas para formação continuada, e o professor Reginaldo ministra os temas relacionados a essa temática. “Nos primeiros encontros a gente têm alguns nortes. Em discussões sobre o conceito de raça, a gente já vê que é uma discussão que leva ao segundo encontro. Então, a partir do primeiro encontro, a gente vai delineando os outros. Dependendo da demanda que a gente recebe, aquilo que existe confusão nas discussões conceituais, a gente já decide como será o próximo encontro. No último realizado a gente fez uma discussão sobre o livro didático”, explicou o professor Reginaldo.

O docente disse que a ideia do projeto de extensão surgiu a partir do diagnóstico encontrado no projeto de pesquisa sobre a aplicação da lei nas escolas de Brejo Santo. “No primeiro ano, a gente conseguiu identificar uma série de carências na aplicação da lei. (…) Não ter uma perspectiva que a gente acha que é adequada de atuar respinga numa série de fatores, como a questão do racismo, como atuar no combate ao racismo. (…) A gente viu que tinha várias falhas tanto na implementação da lei quanto na prática, na metodologia, na didática do professor que está atuando na sala de aula”, ressaltou. Por enquanto, o projeto tem trabalhado em Brejo Santo, mas a ideia é ampliar para cidades vizinhas, como Porteiras e Abaiara.

Outra ideia do professor é também trabalhar em outras áreas de conhecimento, como Exatas e Linguística, e não somente em Humanas. “A ideia é sempre dar formação continuada em todas as áreas possíveis para sanar essas falhas que teve no processo de formação desses professores”, afirmou.

Fátima Teles ressaltou a importância do município preparar os professores para contribuir cada vez melhor com a formação dos estudantes. E, nesse sentido, o projeto de extensão da UFCA tem sido de fundamental importância. “A formação é uma ajuda significativa para que aumente ainda mais o nível de conhecimento dos nossos professores acerca dos temas estudados, principalmente para que a gente possa desconstruir essa questão do racismo”, apontou a responsável pela formação dos professores da área de Humanas.

Atuação com estudantes

O projeto também trabalha com estudantes do nono ano do ensino fundamental, a partir de aulas sobre o assunto, durante o ano letivo. “No caso dos alunos, o que a gente pensou foi em quebrar alguns estereótipos. Então, a primeira ação é fazer os alunos refletirem o que é África e o que é ser negro. Isso é uma coisa muito comum no cotidiano que não se expressa claramente – a expressão negro, nem África. A forma que esses conceitos aparecem são perspectivas que se aproximam de um estereótipo”, disse o professor Reginaldo. Nessa parte da iniciativa, quem fica mais à frente é a estudante do quarto semestre da Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Naturais e Matemática, Edileusa Francisca da Silva. Este ano ela tem feito o trabalho em três escolas municipais: Mestre Zé Luiz Silva Ramos, Maria Heraclides Lucena Miranda e João Landim da Cruz.

A estudante diz que as aulas ministradas aos alunos têm provocado uma mudança na concepção deles sobre o tema. “Uma coisa surpreendente que a gente encontrou a chegar lá é que, ao perguntar o que era a África pros alunos, alunos de nono ano ressaltando, eles normalmente respondem que a África é um país. A gente vai então falando, mostrando que é um continente. Eles ficam muito surpresos com o que a gente mostra. A gente leva a influência da África para o Brasil e muitas vezes eles falam mais a parte negativa. Quando eu começo a falar sobre a parte positiva, eles têm um choque de realidade”, relatou a bolsista de extensão.

Para Edileusa, que nasceu e cresceu em Brejo Santo, além dessa mudança na forma de pensar dos estudantes, o projeto também tem sido importante na formação dela. “Está me ajudando a vencer barreiras pessoais, a vencer a timidez, está me ajudando na prática docente em si, chegar na sala de aula e exercer meu papel como professora. Este semestre comecei a estagiar e já estou inserindo a temática nas aulas do estágio. Na minha formação pessoal me ajudou bastante em várias outras coisas. Várias coisas eu descobri através do estudo pra bolsa, por exemplo a própria lei que a gente trabalha e eu não sabia da existência dela antes da bolsa. Não sabia da obrigatoriedade. Sempre estudei em escola pública, e a temática nunca foi tratada dessa forma que é prevista na lei”, disse.

Consciência Negra

Estudantes sentados em cadeiras no pátio da escola, assistindo à palestra
Estudantes de Brejo Santo participando de atividade do Dia da Consciência Negra
Foto: Davi Moreira/DCOM/UFCA

No último dia 20, Dia da Consciência Negra, a equipe do projeto teve a oportunidade de estar presente na escola Jonas Alves da Costa (Ceru) para falar sobre os negros e questões relativas ao racismo. Os estudantes do ensino fundamental estavam participando do encerramento do projeto Afro, organizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação. Pela vivência nas escolas e nas formações, o professor Reginaldo, a bolsista de extensão e as bolsistas de pesquisa foram convidados a participar. “Todo o projeto de formação de professores feito em parceria com a UFCA tem contribuído muito, inclusive pra essa culminância [na escola]. Essa culminância é fruto de tudo aquilo que a gente vem estudando”, destacou Fátima Teles.

Contato

Instituto de Formação de Educadores (IFE/UFCA)
Campus Brejo Santo
(88) 3221.9590
ife@ufca.edu.br

Pró-Reitoria de Extensão (Proex/UFCA)
Campus Juazeiro do Norte
(88) 3221-9286
proex@ufca.edu.br