Início do Conteúdo

III Foto Síntese homenageia 50 anos de fotografia de José Albano: "Eu fico nos retratos"

Terça, 05 Dezembro 2017 23:44

Quando o irmão de José Albano foi deixá-lo no aeroporto para uma viagem aos Estados Unidos, em 1966, ele colocou no pescoço de Albano uma máquina fotográfica, deu rápidas instruções e nunca mais José largou a fotografia. Já são mais de 50 anos fotografando suas viagens, sua moto em paisagens pelo Brasil e, principalmente, sua casa e as pessoas.

Hoje, Zé Albano é fotógrafo reconhecido não apenas por suas fotografias ou por suas viagens de moto pelo Brasil, mas também por ter reunido milhares pessoas em noites de lua cheia, durante duas décadas, em sua casa de taipa, na Sabiaguaba, bairro afastado cerca de 20 quilômetros do centro de Fortaleza. Nessas noites, Albano abria sua casa para quem quisesse conversar, ouvir música, dançar e guardar a experiência na lembrança. José Albano mora há 42 anos na Comunidade Sabiaguada, como é conhecida uma espécie de condomínio onde vive de maneira alternativa, tendo alguns amigos e seu filho como vizinhos. Aos domingos, almoça com quem estiver disposto a passar a tarde em Sabiaguaba.

Nos dias 30 de novembro e 1° de dezembro, José Albano esteve na Universidade Federal do Cariri (UFCA) falando sobre sua trajetória, contando suas histórias e mostrando aos estudantes, servidores técnicos e professores como retratar da melhor maneira o que mais nos interessa na vida, o ser humano. Ele foi um dos convidados do III Foto Síntese – Fotografia em Trânsito, evento realizado pela Pró-reitoria de Cultura (PROCULT), Curso de Jornalismo e pelo projeto Diálogos com a Fotografia. Fez uma palestra, “José Albano – 50 Anos de Fotografia”, e ministrou a oficina “Vivência em Retrato com José Albano”, e também conversou com a Diretoria de Comunicação (DCOM) sobre fotografia, vida e pessoas. Confira a entrevista:

DCOM – O que é a fotografia para você?

José Albano – A fotografia é uma magia, no sentido de que a vida é um processo muito rápido. Eu comparo a vida a um touro bravo correndo e a fotografia é a maneira que você tem de pegar o touro pelo chifre e dizer “Para! Para!”, congelar um momento. Poder reviver este momento no futuro e partilhá-lo é a magia da fotografia.

DCOM – Você disse, durante essas vivências na UFCA, que o retrato é o que há de mais interessante da fotografia. Por quê?

JA – Por causa do ser humano. O ser humano é a coisa mais importante para os outros seres humanos. Eu sempre cito o fato de que os romances – os livros de ficção –, os filmes, as novelas, os seriados, tudo isso é a respeito de gente, não é a respeito de montanha, de rio, de cachoeira ou de animais; o assunto é gente. Então, gente é o que mais interessa a gente. Dentro da fotografia, quando eu abordo fotografar gente, eu me deparo com o fato de que, na pessoa, a parte mais única, mais diferenciada, é o nosso rosto. E, no nosso rosto, a coisa mais importante é o olhar, são os olhos da pessoa, é a janela da alma. Se eu vou fazer um retrato, eu não vou fazer isso de corpo inteiro, porque eu estou muito longe do olho, o olho ficou muito miúdo. Eu quero me aproximar ao máximo, fazer um pouco do ombro, pescoço e cabeça para eu ter acesso ao olhar, que é a sede de toda a magia. Eu acho que, de tudo o que a natureza criou, a coisa mais interessante, mais importante, é o rosto humano.

DCOM – Você falou da fototerapia que fez com os Albanitos* no passado... como é que você relaciona essa fototerapia com esse excesso de autorretratos, as selfies, hoje? Está todo mundo fazendo terapia?

JA – Olhe, de uma certa forma, sim. Porque, se você faz uma selfie e sente que aquilo lhe retrata, o momento lhe retrata, o ambiente lhe retrata, e você divulga isso no Facebook da vida, você está, de uma certa forma, dando uma escovada no seu ego, você está atraindo outras pessoas para apreciarem o seu rosto. Então, de uma certa forma, é uma autoterapia. Agora, no tempo que eu fiz isso com os Albanitos, era uma terapia real porque ninguém tinha acesso à fotografia. Não existia celular, não existia câmera barata, o processo de fotografia era caro pelo filme, pela revelação, por tudo; e criança da periferia, criança pobre, não tinha foto. Então, eu relacionei na minha análise o fato de que nós temos no Brasil os sem-terra, temos os sem teto e tínhamos os sem foto. A criança vivia a infância inteira e não tinha uma foto para mostrar como ele era com dez anos, doze, treze, né? Eu cumpri essa missão de resgatar esse tempo da infância deles e poder oferecer isso, partilhar com a família. Hoje está na internet; eles estão tendo acesso, o mundo todo está tendo acesso.

DCOM – O senhor trabalhou com fotojornalismo a vida inteira. Com esse excesso de imagens, de áudio e vídeo, qual o papel do fotojornalismo?

JA – Nós precisamos, talvez, definir o que seja fotojornalismo. Porque existe o fotojornalismo ligado a notícias, fotojornalismo quente, aconteceu, é terremoto, é revolução, é guerra, é um surto de malária, isso é notícia; e há o jornalismo frio, que são histórias interessantes que não têm data para serem divulgadas, pode ser em qualquer época, mas são registros, são documentações de fatos culturais ou de vivências que são interessantes de ser divulgados, que merecem a divulgação, mas não são notícia; são a parte editorial do jornalismo. Foi a parte que mais realizei. Principalmente um jornalismo também pessoal, meu, que é seguir o crescimento da minha filha, que é seguir a construção da minha casa, que é seguir a vida desses meninos em volta de mim, e é um jornalismo que também foi impresso em forma de livro, de artigo, mas é um jornalismo mais pessoal.

DCOM – Você saiu da cidade há 42 anos, passou a viver de maneira alternativa, mas você vivencia as cidades. Como é possível se viver bem na cidade?

JA – Viver na periferia da cidade, viver ligeiramente fora da cidade, foi a maneira como eu encontrei. Eu não queria morar mais longe do que eu moro. Eu tenho acesso à cidade, eu amo a cidade, parece contraditório eu dizer isso, mas a cidade no sábado de manhã... eu conheço todas as bocas de caldo de cana, todas as bocas de chá mate com limão. Eu adoro andar nas lojas de importados da China, do escambau, as lojas de plástico, enfim, eu sou um encantado com o que a cidade tem a oferecer também, mas não [gosto de] dormir lá. Por exemplo, às vezes eu vou para uma reunião, uma festa na casa de amigos, aí já é onze e meia, meia-noite, eles dizem “durma aqui”, eu digo “eu não teria nenhuma dificuldade de dormir aqui, a minha dificuldade é em acordar aqui, é isso que eu não quero”. Então, eu tenho que voltar para a minha casa, não importa que horas sejam. Acordar onde eu moro, que é onde eu escuto os passarinhos, é onde eu tenho silêncio, onde tem um ar puro.

[A entrevista começava a se encaminhar para o fim, quando José Albano se colocou uma pergunta.]

JA – Tem uma coisa que me perguntam muito. Os jornalistas me fazem esta pergunta, que é a história da aposentadoria. É sabido que uma pessoa como o Chico Albuquerque [1917-2000], por exemplo, grande fotógrafo, trabalhou até morrer; outros tantos que a gente ouve falar, conhece, trabalham até morrer. Eu ando abusado de fazer foto. Então, a pergunta é “Como é que pode um fotógrafo se aposentar? Você para de fotografar? Como é isso?” Aí, a minha resposta é o seguinte: eu parei de fazer fotografias para clientes, eu parei de viver de fotografia, hoje eu vivo de uma aposentadoria, mas nenhum fotógrafo se aposenta do arquivo dele. Um arquivo de 80 mil, 100, 120 mil fotografias é um arquivo que merece a atenção do fotógrafo até o fim da vida, não vai dar tempo de eu procurar ali tesouros escondidos que nunca foram trazidos a público, fotografias inéditas que eu preciso revisitar, editar, e restaurar, e jogar pro mundo. No caso, eu estou fazendo isso usando a internet, o Flickr é meu veículo de colocar essas fotos. Eu comecei com os Albanitos, mas depois eu vou visitar os outros temas todos.

DCOM – Você andou por vários lugares do mundo, do Brasil, existe uma luz diferente no Ceará, que você só encontra no Ceará?

JA – Não, não, eu acho que é maior do que o Ceará. Existe uma luz no Nordeste. Essa luz banha o Piauí; banha o Maranhão, de uma certa forma, embora lá já seja mais nublado; banha o Rio Grande do Norte, a Paraíba, possivelmente Pernambuco; é uma luz dura, porque o sol fica muito a pino durante o meio do dia, então é uma luz dura, de muita intensidade. Para mim é fascinante, mas não é uma luz cearense, é uma luz nordestina, vamos dizer assim.

DCOM – E o Cariri? O que é que você acha do Cariri?

JA – O Cariri é um reduto do Ceará diferenciado do resto do Ceará. Eu acho que existe uma linha que demarca a diferença, principalmente, ou inicialmente, linguística; porque dessa linha para cima nós falamos “de noite” e “de dia” [fala com sotaque de Fortaleza]; e dessa linha pra baixo, incluindo o Cariri, é “di noiti” e “di dia”. O “di noiti” e o “di dia” é mais próximo ao português original de Portugal – “de noite” e “de dia” [pronuncia com sotaque de Portugal] – do que o nosso “de noite” e “de dia” do norte, né? E a outra coisa é a presença da cultura negra aqui no Cariri, que enriquece muito a cultura em geral. Fortaleza é complicado, o norte do Ceará, você não tem negros, quando você vê negros, provavelmente, são visitantes de outro lugar.

DCOM – Um conselho pros jovens que querem seguir no campo da fotografia...

JA – O meu conselho é que eles caprichem profundamente na edição, porque existe uma infinidade de imagens quando você não tem que pagar filme, quando é tudo digital; que eles caprichem na edição e caprichem no tratamento das imagens; levem a público só o melhor do melhor, nada de uma enxurrada de imagens que perdem o valor. Então só vai vencer na fotografia quem tiver esses dois talentos: editar e tratar essas imagens.

DCOM – Muitos fotógrafos ficam conhecidos por um tipo de fotografia. E você falou mais de uma vez que fotografou muito as casas de taipa no interior do Ceará e você não mostrou nenhuma foto, além da sua própria casa. Também não vi, [entre as suas], fotos que fotógrafos costumam fazer de alguns movimentos regionais... por exemplo, aqui no Cariri, as pessoas fotografam muito as romarias, tem essas coisas da casa de taipa, você não fez isso. Como é que você define a sua fotografia, o que foi que você mais capturou?

JA – Este livro, que na realidade é [sobre] 40 anos [de fotografia]**, deu um trabalho danado para editar porque eu não tenho uma grande diversidade de temas que me fascinaram, mas eles estão, praticamente, todos representados ali, no livro: as viagens, tentar ver o que é que as outras culturas têm a oferecer; minha filha; a construção da minha casa; as viagens de motocicleta; a paisagem cearense e o registro, no caso jornalístico, do movimento alternativo no Brasil. Ali tem um pequeno número, tem 12 imagens das 5 mil, 10 mil que eu fiz registrando os encontros dos alternativos. Mas nunca me fascinou, por exemplo, fotografar procissão, as romarias de Canindé, as romarias como o Tiago Santana fez os benditos, as coisas aqui do Juazeiro. Esses temas nunca me interessaram. A cidade de Fortaleza nunca fotografei. Não tenho foto de Fortaleza, não foi a minha predileção. Eu fico nos retratos, no jornalismo pessoal e nesses temas focados, assim: a minha moto na paisagem, a minha filha crescendo, as filhas da minha filha, a minha casa, as coisas que cercam a minha vida, como se tivesse um casamento entre a minha fotografia e a minha vida, entende? O livro, no caso, é autobiográfico.

--

(Com a colaboração de Ricardo Salmito)
 
* Albanitos eram garotos que moravam na Sabiaguaba e eram amigo de um afilhado de José Albano. Esses garotos começaram a frequentar a casa de Zé para usufruir do campinho de futebol, de seu estúdio de fotografia, da internet... Albano fez retratos deles, que eram chamados assim porque às vezes vestiam as roupas de Zé e saiam brincando pelo sítio.

** José Albano: 40 Anos de Fotografia, 2009, Editora: Terra da Luz.

Mais sobre José Albano: https://www.youtube.com/watch?v=Plc8WQWi-KA 

--

Veja também fotos do III Foto Síntese:

 

III Foto Síntese

Lido 334 vezes