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Debate sobre lugar da cultura na universidade abre colóquio promovido pela PROCULT

Terça, 05 Dezembro 2017 09:33
O debate sobre o papel da cultura nas universidades foi o tema da mesa de abertura do Colóquio Indicadores de Hábitos e Consumos Culturais, promovido pelo Observatório Cariri de Políticas e Práticas Culturais, grupo de estudos vinculado à Pró-reitoria de Cultura (PROCULT) da Universidade Federal do Cariri (UFCA). O evento iniciou na noite desta segunda-feira, 4, no auditório da Adufc Cariri, ao lado do campus Juazeiro do Norte. 
 
Na mesa de abertura, discorreram sobre o tema o professor Alexandre Barbalho, da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e da Universidade Federal do Ceará (UFC), e o professor Luiz Augusto Rodrigues, da Universidade Federal Fluminense (UFF). O debate foi mediado pelo professor Ivan Satuf, do Observatório Cariri e do curso de Jornalismo da UFCA. 
 
Alexandre Barbalho apresentou um panorama histórico da presença de práticas culturais nas universidades, iniciando pela década de 1950, quando surgiram muitas instituições de ensino superior, fazendo um paralelo com o momento atual, a fim de identificar o porquê das ciências humanas e, consequentemente da cultura, terem perdido espaço nas universidades. Para Alexandre, inicialmente, as universidades lançaram-se não somente como instituições de ensino, mas como espaços culturais importantes para as cidades onde foram criadas. “A UFC tem um museu, que data dos anos 1950, tem um teatro e tem a Casa Amarela, que desde os anos 1970 forma pessoas ligadas à produção audiovisual e forma público também”, exemplificou. 
 
Após o período de “ebulição cultural”, através da atuação dos estudantes e intelectuais que estavam nas instituições de ensino superior, iniciou-se o Regime Militar, em que houve crescimento das universidades, na opinião de Barbalho, inclusive da pós-graduação, no entanto com foco voltado para ciência e tecnologia, para a área de ciências exatas. “As ciências humanas vão perdendo espaço para uma formação mais técnica”, disse. Aliado a isso,  o clima de forte repressão dos movimentos e coletivos minou, conforme Alexandre, a expressão cultural na universidade. “Produzir cultura num ambiente de censura é muito difícil. A juventude vai começar a produzir de forma mais independente, para fugir da repressão”. 
 
Com o fim do Regime Militar e a retomada do movimento estudantil, o cenário já não era mais o mesmo. Segundo Barbalho, a universidade brasileira passou a conviver com o processo de chegada do pensamento neoliberal, além de atuar num momento em que a presença universitária quase não foi ampliada pelos governos da época. Aliado a isso, Alexandre lembrou das dificuldades pela qual passou o Ministério da Cultura, criado em 1985, mas com projeto esvaziado. Depois extinto e criado novamente, mas com pouco diálogo com o Ministério da Educação, espaço institucional em que estão inseridas as universidades. Na década de 2000, o cenário muda e a relação torna-se mais estreita, no entanto há uma descontinuidade dos gestores que estão à frente do Ministério da Cultura. 
 
“A universidade já foi uma instituição fundamental para a formação cultural deste país. É importante que a universidade não seja um espaço só de ensino, extensão e pesquisa, mas que seja um equipamento cultural”, reforçou. 
 
 

Formação em cultura

 
O professor Luiz Augusto abordou a experiência da UFF com o bacharelado em Produção Cultural da UFF, criado em 1995, e a pós-graduação em Cultura e Territorialidades, que existe desde 2013. Iniciou falando sobre a ampliação do conceito de cultura. Inicialmente ligado à ideia de acúmulo de conhecimento, a algo que “está fora da gente”, passou a ter um viés mais antropológico dos “saberes, fazeres e quereres”. No entanto, mesmo o campo antropológico, na opinião de Luiz Augusto, ainda trazia algo de muito folclórico. A ideia, atualmente, é ampliar ainda mais o conceito e relacioná-lo ao sujeito. “Precisamos  dialogar com a cultura como algo ligado ao sujeito, a suas trajetórias de vida. A cultura está no nosso dia a dia, tem que ser trabalhada a partir da bagagem dos sujeitos”, destacou. 
 
Para Luiz Augusto, uma formação em cultura deve contemplar questões de gêneros, raça e condições socioeconômicas; atuar em diferentes segmentos, como linguagens artísticas (sem obrigatoriedade profissional), questões técnicas (qualificando inclusive para profissionalização) e gestão cultural (necessidade de capacitar gestores de políticas, gestores de instituições, conselheiros de cultura, gestores comunitário). Os formatos podem ser os mais diversos, como ensino superior, cursos livres, extensão universitária. 
 
O professor comentou também sobre os eixos que devem nortear as ações empreendidas pelos mais diferentes agentes da cultura. Primeiro, deve-se conhecer os processos urbanísticos e culturais dos diversos territórios das cidades. Depois, compreender os registros das várias práticas (populares, de massa, da indústria cultural, as expressões mais eruditas) e discursos que disputam as políticas culturais. Por fim, é necessário entender a multiplicidade cultural dos grupos sociais e o papel político e social da cultura. “A ação cultural e a política cultural devem ser dirigidas para mudança de valores culturais e sociais”.  
 
Diante dessa abordagem, Luiz Augusto fez reflexões sobre o papel da cultura nas universidades. Para o professor, é necessário que a universidade permaneça como equipamento cultural das cidades onde está inserida. “Tem que ser um equipamento aberto e disponível para a cidade. Somos um ambiente encastelado. As pessoas não entendem como um equipamento que faz parte da sua vida, por isso ninguém defende a universidade”, criticou. 
 
De acordo com Luiz Augusto, o papel cultural das universidades está relacionado à complementaridade de equipamentos culturais das cidades; complementaridade de informações e indicadores; complementaridade prático-processual (por exemplo, criação de metodologia de apoio aos municípios para formulação de Planos de Cultura) e complementaridade na matriz operativa em cultura (por exemplo, o plano elaborado a partir do edital Mais Cultura nas Universidades, baseados no mesmo espiral de políticas).
 

Programação 

 
A programação do Colóquio Indicadores de Hábitos e Consumos Culturais segue nesta terça-feira, 5, com palestras sobre  “Indicadores Culturais” (10h) e “Gestão cultural e gestão de políticas culturais” (18h30), além da apresentação da pesquisa sobre hábitos culturais dos estudantes da UFCA (14h). Todas as atividades ocorrem no  auditório da Adufc Cariri, ao lado do campus Juazeiro do Norte, e são abertas ao público. 
 
 
Confira fotos da abertura aqui
 

Colóquio Indicadores de Hábitos e Consumos Culturais

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